Aproveito a sugestão do meu amigo Enio Lindenbaum e o momento em que uma mulher assume a presidência do Brasil para trazer aqui dois exemplos de mulheres notáveis, que fizeram a diferença, cada uma a sua maneira e no seu contexto. O que essas mulheres tem em comum? São trajetórias diferentes, mas que resultaram na firme determinação, de ambas, de mudar a realidade a seu redor.

Lydia (Bastogi Giannoni) Moschetti, nasceu em 1888, em Fucecchio, Toscana, Norte da Itália. Teve uma infância e adolescência muito tristes e sofridas que a marcaram por toda a sua vida. Viveu numa época em que a sociedade era extremamente preconceituosa e a educação rígida era baseada em castigo físico e moral, sob terríveis ameaças de um Deus implacável. As classes sociais menos favorecidas eram discriminadas, privadas do acesso a quase tudo, e deveriam contentar-se com a pobreza extrema, porque era “vontade de Deus”. Lygia era filha de um nobre e uma plebeia. Seu pai era muito autoritário com os filhos e com a esposa e mal provia o sustento da família. Um homem injusto, rigoroso e desumano em suas relações familiares. Não havia relação da família com os avós paternos. A mãe conformava-se com a vida que levava por acreditar que: “Deus assim o quer”.

Lydia, uma criança sensível, percebia que a vida que levavam não era justa. A polenta mal dava para saciar a fome das crianças. A cada dois anos nascia um filho, já eram 10. A única filha que tinha permissão para visitar os avós paternos era ela. Nessa horas, ela brincava com ricos brinquedos, vestiam-na como nobre para não destoar das primas que pareciam princesas, para depois voltar para casa onde reinava uma vida de miséria, onde não havia amor, exceto o da mãe pelos filhos, mas um amor conformado, submisso, sem esperança… As crianças não tinham brinquedos e eram proibidas pelo pai de brincarem na rua. Além da miséria eram “prisioneiros”. Só mais tarde, quando o governo determinou ensino obrigatório, as crianças conseguiram sair de casa, mas se deparavam com o rigor da disciplina escolar que ia da palmatória a outros castigos físicos e morais.

Lydia não se conformava com a fome, com o autoritarismo do pai, com a submissão exagerada da mãe que não tinha voz, nem vez, e começou a se revoltar contra a religião, contra a injustiça social e prometeu para si mesma um dia reverter essa situação. Sofreu muito por sua personalidade forte. Era capaz de enfrentar situações de injustiça com as quais não concordava, desafiando a autoridade. Em várias situações da vida, na defesa de colegas injustiçadas, levava castigos ainda mais fortes. Por não conseguirem sufocar ou modificar sua maneira (avançada para a época) de ver a vida, foi mandada para um internato para “aprender a pensar como todos da época”. Lá, sofreu os piores castigos que ficaram no arquivo de sua atormentada memória, para o resto de sua vida. Sobreviveu. Tornou-se cada vez mais forte e sempre com a determinação de vencer na vida para tirar sua mãe da miséria.

Seu pai deixou a família para trás e veio para o Brasil. Depois de algum tempo, Lydia, aos nove anos de idade, veio com sua mãe para o Brasil. Aqui, lutou muito. Tornou-se cantora de ópera, na época em que havia grande preconceito com relação aos artistas. Até sua mãe não se conformava com essa sua atividade e sentia vergonha da profissão da filha. Mas Lídia, embora vivesse no meio artístico, conservou-se íntegra, mas continuou sofrendo o preconceito da própria família.

Jovem, conheceu o italiano Luiz Moschetti em São Paulo. Um homem de muitas posses, com quem viveu, a partir de 1921, em Porto Alegre. Foi no Rio grande do Sul que Dna Lydia passou a se tornar conhecida como uma das mais brilhantes personalidades do mundo assistencial. Construiu casas assistenciais e realizou diversas obras filantrópicas nos mais diferentes campos. Foi agraciada com 56 títulos honorários e inúmeras comendas.

Entre muitas obras, merece destaque a criação do Instituto Santa Luzia, em março de 1941, com objetivo de recolher os cegos para dar-lhes uma oportunidade, favorecendo-lhes os meios até então inexistentes para eles no Rio Grande do Sul. A história do Hospital Banco de Olhos de Porto Alegre também está intimamente ligada a Dna Lydia Moschetti; foi fundado em março de 1956 com o objetivo principal de propiciar a recuperação da visão.

Dna Lydia Moschetti era uma mulher de visão, humanitária, determinada, moderna para a sua época, e ainda profundamente incomodada com as diferenças sociais. Em abril de 1943 reuniu as intelectuais de Porto Alegre e com elas fundou a academia Literária Feminina do RS. Patrocinou, também, a criação do Museu Casal Moschetti, em Farroupilha, que possui acervo muito rico e variado. Sua história começou em fevereiro de 1972. Embora o casal Luiz e Lydia Moschetti nunca tenha residido na famosa casa da rua Ruy Barbosa, em Farroupilha; Dna Lydia doou grande parte do que possuía para a implantação desse museu. Ela tinha uma ligação muito forte com a cidade, pois a visitava seguidamente em busca do clima ameno da Serra Gaúcha. DNA Lydia foi escritora, atriz de teatro, pintora, professora e cantora lírica. Seu marido também viajava muito e sempre trazia para a esposa uma lembrança de algum país. Com isso, ela foi colecionando um impressionante acervo artístico e cultural: pratarias, objetos em mármore, móveis esculturados à mão, cristais, uma pinacoteca de diversos artistas, inclusive contendo quadros pintados por ela e uma vasta biblioteca. Todo esse acervo foi para Farroupilha e esta exposto no museu. DNA Lydia Moschetti faleceu de esclerose no dia 5 de agosto de 1982, aos 94 anos.


Madre Teresa de Calcutá (Agnes Gonxha Bojaxhiu), nasceu em 26 de agosto de 1910, em Skopje, na Macedônia, filha de pais albaneses, numa família de três filhos, sendo duas moças e um rapaz. Embora ela tenha nascido a 26 de agosto, ela considerava o 27 de Agosto, o dia em que foi batizada, como o seu “verdadeiro aniversário”. Frequentou uma escola não católica.

Aos 13 anos, ouviu um jesuíta, que era missionário na Índia, dizer: “Cada qual em sua vida deve seguir seu próprio caminho”. Tais palavras a impressionaram e se determinou a dar um sentido à sua vida, a entregar-se a serviço dos outros: ser uma missionária. Apesar da pouca idade, procurou o referido jesuíta para saber como fazer isso, ao que o prudente homem respondeu que aguardasse a confirmação do tempo e da “voz de Deus”. Seis anos mais tarde, cada vez mais convicta de sua vocação, solicitou a admissão na Congregação das Irmãs do Loreto que trabalhava em Bengala, mas teve primeiro de aprender a língua inglesa em Dublim. De lá, foi enviada para a Índia, em 1931, a fim de iniciar seu noviciado em Darjeeling, no colégio das Irmãs de Calcutá.

Em maio de 1931 fez a profissão religiosa e emitiu os votos temporários de pobreza, castidade e obediência tomando o nome de “Teresa”. A escolha do nome foi em homenagem à monja francesa Teresa de Lisieux, padroeira das missionárias, canonizada em 1927 e conhecida como Santa Teresinha. De Darjeeling passou para Calcutá, onde exerceu, durante os anos 30 e 40, a docência em Geografia no colégio bengalês de Sta Mary, também pertencente à congregação de Nossa Senhora do Loreto. Impressionada com os problemas sociais da Índia, que se refletiam nas condições de vida das crianças, mulheres e velhos que viviam na rua e em absoluta miséria, fez a profissão perpétua dos votos em maio de 1937.

Após sair do colégio, tirou um curso rápido de enfermagem, que veio a tornar-se um pilar fundamental da sua tarefa no mundo. Em 1946, decidiu reformular a sua trajetória de vida. Dois anos depois, e após muita insistência, o Papa Pio XII permitiu que abandonasse as suas funções enquanto monja, para iniciar uma nova congregação de caridade, cujo objetivo era ensinar as crianças pobres a ler. Desta forma, nasceu a sua Ordem – “As Missionárias da Caridade”. Como hábito, escolheu o sari, nas cores — justificou ela — “branco por significar pureza, e azul por ser a cor da Virgem Maria”. Como princípios, adotou o abandono de todos os bens materiais. O espólio de cada irmã resumia-se a um prato de esmalte, um jogo de roupa interior, um par de sandálias, um pedaço de sabão, uma almofada e um colchão, um par de lençóis, e um balde metálico com o respectivo número. Começou a sua atividade reunindo algumas crianças, a quem começou a ensinar o alfabeto e as regras de higiene. A sua tarefa diária centrava-se na angariação de donativos e na difusão da palavra de alento e de confiança em Deus. Em dezembro de 1948 recebeu a nacionalidade indiana. A partir de 1950 empenhou-se em auxiliar os doentes com lepra. Ao primeiro lar infantil ou “Sishi Bavan” (Casa da Esperança), fundada em 1952, juntou-se ao “Lar dos Moribundos”, em Kalighat.

Em 1965, o Papa Paulo VI colocou a Congregação de Madre Teresa sob controle do papado e deu autorização para a sua expansão a outros países. Entre 1968 e 1989 a Congregação Missionárias da Caridade, a partir de centros de apoio a leprosos, velhos, cegos e doentes com HIV; escolas, orfanatos e trabalhos de reabilitação com presidiários, estabeleceu a sua presença missionária em países como Albânia, Rússia, Cuba, Canadá, Palestina, Bangladesh, Austrália, Estados Unidos, Sri Lanka|Ceilão, Itália, antiga União Soviética, China, etc. O reconhecimento do mundo pelo seu trabalho concretizou-se com o Templeton Prize, em 1973, e com o Nobel da Paz, em outubro de 1979.

Madre Teresa de Calcutá, como era conhecida, morreu em 1997, aos 87 anos, de ataque cardíaco, quando preparava um serviço religioso em memória da Princesa Diana de Gales, sua grande amiga e falecida ela própria 6 dias antes num acidente de automóvel em Paris. Seu funeral foi tratado como o de um grande estadista e recebeu inúmeros representantes do mundo todo que fizeram questão de estar presentes para homenagear essa grande mulher. As televisões do mundo inteiro transmitiram ao vivo durante uma semana, mostrando milhares de pessoas que queriam dar-lhe o último adeus, em seu velório no estádio Netaji. No dia 19 de outubro de 2003, o Papa João Paulo II beatificou Madre Teresa – conhecida ainda em vida como a “Santa das sarjetas”. Um de seus pensamentos dizia: “Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso”.